Wednesday, 23 January 2019

SAÚDE MENTAL E OS ESTIGMAS DA MEDICAÇÃO

     Confesso que é com muita ponderação e alguma hesitação que hoje vos falo acerca de saúde mental, um assunto que não encaro de ânimo leve nem acho que deva ser banalizado.
     Sempre fui uma miúda alegre, de bem com a vida. Um lar para viver, boas notas, uma família compreensiva, amizade e amor. Tudo para me sentir feliz e, no entanto, não era assim que me sentia. Uma sombra começou a aproximar-se de mim, devagarinho e de forma dissimulada, sem que me apercebesse. A motivação desvaneceu-se. De repente, interagir, cuidar de mim, alimentar-me e sair de casa tornaram-se tarefas cada vez mais impossíveis. Aos olhos dos outros, continuava a mesma e foi assim que insisti em ficar, a deteriorar-me cada vez mais, consciente disso. Estava disposta a permanecer assim até que os efeitos físicos se começaram a revelar.
     Uma sensação de terror no peito apareceu. Era uma dor física e era uma vontade de fugir que surgia sem aviso e sem razão. Era ansiedade. Episódios aqui e ali, os quais eu justificava sempre com alguma coisa. Nas aulas? É o stress, óbvio, pensava eu. Na rua? Medo e desconfiança. De férias, a descontrair? ... Não, não conseguia arranjar uma desculpa para isso. Tornou-se cada vez mais constante, passou de algo esporádico a algo que acontecia, literalmente, a todas as horas. A partir daí, a situação escalou para ataques de pânico constantes e eu não entendia porquê. Afinal, até me sentia melhor, tinha trocado o stress da universidade por uma mantinha no sofá e um bom livro. Não havia explicação. Na altura, pensei que aquela sensação no peito fosse devida ao meu coração, que foi operado há uns anos atrás e poderia, por algum motivo menos bom, ser o responsável. Tentei aguentar mas não consegui resistir por muito mais tempo (ainda bem!) e foi então que decidi explicar à minha mãe o que se estava a passar. Aí começou o processo de tratamento.  
     Expus tudo à médica que me acompanha até hoje, fazendo questão de frisar que me sentia bem melhor, mais que descontraída ("de férias!", repeti eu tanta vez). Evitei ao máximo apresentar-me como alguém perturbado mas, tendo em conta o que eu lhe tinha confidenciado, a doutora percebeu o que eu estava a tentar fazer. Foi muito paciente comigo e explicou-me calmamente que todo o stress, todas as minhas preocupações e todas as obsessões em relação a mim própria, aos outros e ao mundo exterior se tinham acumulado num frasquinho de vidro, pouco a pouco, até que o frasquinho ficou sem espaço e acabou por se partir. 

     Estava a destruir-me a mim própria e tive de o admitir

     Seguiram-se consultas com a especialista, medicação e consultas de psicologia. Poderia ocultar a medicação deste texto com toda a facilidade, dizer-vos que a terapia foi suficiente. Contudo, não é o que quero fazer. Quero, em vez disso, mostrar que não há problema em procurar ajuda. Ajuda especializada e adequada. Acreditava no preconceito contra esta medicação e pensava "Medicamentos?? Eu? NUNCA", quando não o devia ter feito. 
     Uma doença mental é, como o nome claramente indica, uma doença. E por isso mesmo deve ser tratada, ainda que com toda a precaução e com o diagnóstico e métodos corretos, conforme as necessidades de cada um. A medicação surge quando não há outro recurso e quando a situação é de tal forma grave que coloca a pessoa em risco. Quando não me alimentava, chegaram a questionar-me se não tinha força nas pernas para ir até à cozinha. Tinha. O que não tinha era força mental para me levantar da cama e andar até lá sem chorar a meio caminho. 
     Um bom especialista não irá prescrever medicação desnecessária se a situação puder ser combatida de outra forma, com terapia (complementando com muitos outros fatores). Confesso que estava com receio de ser mal interpretada neste ponto mas penso que fui clara e que era algo essencial na minha história e na mensagem que quero passar. Ainda existe um grande estigma em relação às doenças mentais e aos medicamentos que as tratam e isso não pode ser tolerado. O tão comum "isso é para os malucos!", o "estás mas é a fazer fita!" e ainda o "isso só vicia e faz sono, vais andar aí a dormir pelos cantos!". Noções retrógradas que não ajudam, em nada, uma pessoa que está a sofrer e que finalmente encontrou a coragem para pedir ajuda. E é por razões como esta e tantas outras que este assunto acaba por ser escondido para que ninguém veja e ninguém julgue. Eu própria o fiz. Com vergonha e com receio.  
     Não posso deixar de referir que todos os medicamentos têm impactos diferentes. Existe uma dose que deve ser adequada a cada caso e, de facto, há determinados medicamentos que são extremamente fortes, viciantes e provocam efeitos muito negativos, daí ser tão importante o cuidado nos medicamentos e nas suas doses! Não há necessidade de um medicamento prejudicial quando a situação pode ser combatida com outro mais fraco. Um bom especialista irá ter tudo isso em atenção. 
     A doutora prescreveu-me apenas a medicação e as doses necessárias, de uma forma lenta e progressiva (como deve ser feito). Foi a primeira a explicar-me a questão dos medicamentos viciantes e teve o cuidado de não os incluir, visto não ser necessário. Com todas estas precauções, nunca senti um único efeito negativo.
     Caso sintam que precisam de ajuda, procurem um bom especialista e não se conformem se não acharem que não é competente o suficiente e que os seus métodos não são adequados! 

     Hoje sinto-me melhor e posso dizer que, com a ajuda adequada, positividade e muiita força de vontade, tudo se consegue! É viver a vida um dia de cada vez e agradecer por tudo o que temos! Espero que tenham gostado ♡


Saturday, 5 January 2019

A MINHA EXPERIÊNCIA EM CABO VERDE COM AS TARTARUGAS!

Após uma longa e necessária pausa, estou finalmente de volta ❤ 
Como vos tinha dito aqui, decidi partir numa aventura para Cabo Verde como voluntária da Fundação Tartaruga, e é sobre esta grande experiência que vos falo hoje!

Inicialmente, tinha planeado uma viagem de 2 semanas. Um país desconhecido, pessoas desconhecidas, condições básicas, esforço físico: achava eu que essas 2 semanas me iam ser mais que suficientes. Acontece que não foi bem assim. Ao fim de uma semana, estava eu a adiar o voo de regresso para prolongar a minha estadia!
Esta viagem representa a descoberta. Descoberta de uma  nova cultura, descoberta de um modo de vida completamente diferente mas, sobretudo, descoberta a nível pessoal. Regressei com um sentimento de renovação. Aprendi a valorizar mais as pequenas coisas da vida. Coisas essas como um banho, comida na mesa, um teto, uma família, um ambiente seguro. e um chocolatinho ahah Ao longo do post, espero conseguir transmitir-vos um pouco deste sentimento tão bom.

As Acomodações
É preciso ter noção que as condições são realmente muito básicas. Existem 2 tendas grandes para dormir, uma feminina e outra masculina, sendo que cada um pode levar a sua própria tenda (foi o que fiz e o que voltaria a fazer). A pouca eletricidade que existe no acampamento provém de painéis solares e tem como fim abastecer a arca frigorífica e o carregamento dos telemóveis. Mais nada. 
Existe um pequeno espaço para tomar banho mas, não havendo água corrente, entrava em ação o balde (e tão bem que me sabia!). O intuito foi sempre o de poupar o máximo de recursos possível!


Pode parecer muito pouco mas, de facto, não foi preciso mais. E a verdade é que nunca me senti tão livre. Foi assim que me apercebi do quanto o telemóvel, a televisão e o computador me prendem e impedem de contactar verdadeiramente com as pessoas e, tão ou mais importante, comigo própria. Acho importante referir que eu nunca tinha acampado ahah (shame on me, eu sei) Portanto se eu, uma novata nesta vida, fui capaz de superar tudo isto e gostar, então penso que todos conseguimos, basta querer. A pré-disposição é essencial em experiências como esta, só assim será possível usufruir em pleno de tudo o que elas nos têm para oferecer.


O trabalho com as tartarugas
Numa palavra: mágico. As tartarugas são seres incríveis - durante o ano vivem a sua vida no oceano e, na altura da desova, regressam todos os anos à mesma praia onde nasceram, para colocarem os seus ovos! É aqui que entram inúmeros perigos, uns óbvios, como os caçadores, mas também outros menos óbvios, como os hotéis e os turistas. Assim, trabalhávamos dia e noite para proteger os ovinhos e as suas mães corajosas. 
Éramos responsáveis por 3 praias, sendo que estava tudo muito bem organizado em 3 turnos por cada praia: 2 patrulhas noturnas, onde trabalhávamos com as tartarugas (a primeira patrulha das 20h até à meia noite, e a segunda da meia noite até às 4h da manhã) e os censos matinais (das 5h30 até às 8h), sem tartarugas, onde percorríamos as praias para registar todos os rastos feitos nessa noite. Tudo isto era feito com muita atenção, pois havia sempre a assustadora hipótese de alguma tartaruga se ter perdido durante a noite e, se não a avistássemos e ajudássemos, ela acabaria por secar com o Sol...



Para além de todos esses kms percorridos diariamente, uma das praias requeria a recolocação de todos os ninhos, devido à existência de um hotel. Isto significava carregar baldes com os ovinhos até a um local seguro, processo esse que me deixava os braços em fogo. A privação de sono também não ajudou e, na última semana, confesso que os efeitos de todo esse cansaço se fizeram sentir. 
Foi aí que o poder do pensamento comprovou a sua força. Todas as noites, assim que regressava ao acampamento e me sentava no banco, bastava-me pensar em todas aquelas tartarugas e o privilégio que era poder sequer olhar para elas. Tudo valeu a pena.
Nunca me poderei esquecer do meu primeiro turno, passado ele na praia com o hotel. Era noite cerrada e toda eu era uma bola de entusiasmo enquanto caminhava até à praia, a interrogar o Líder que me acompanhava com todas as perguntavas que me conseguia lembrar. Quando avistámos a primeira tartaruga, sorri durante uma hora seguida, enquanto a observava a subir a praia, fazer o seu ninho com todo o cuidado, colocar mais de 100 ovinhos (que íamos retirando 1 a 1, com muito cuidado e sem que ela se apercebesse, para depois recolocarmos no local seguro), camuflar o ninho e, por fim, regressar ao mar. É um processo verdadeiramente mágico.
A cultura e as pessoas
Sem dúvida alguma, das maiores surpresas. Para ser sincera, não tinha pensado neste assunto antes da viagem. Sabia de ante-mão que se tratava de uma cultura machista, algo que pude, de facto, comprovar... Contudo, a animação, alegria, simpatia e humildade conquistaram-me muito rapidamente.


Ora...Sendo eu uma introvertida assumida, ao longo do primeiro dia, a música, dança e a animação que se viviam no acampamento deixaram-me num estado de pânico. Só pensava "oh meu deus, o que fui eu fazer", "nunca me vou conseguir adaptar", todo um rol de aflições que hoje vejo serem infundadas. Era um grande contraste com a minha realidade em casa mas foi aí que, sem sequer me aperceber, me rendi a tudo isso, graças à hospitalidade dos cabo verdeanos, que sempre se mostraram incrivelmente prestáveis em tudo. Através da observação e de conversas que fui tendo com cada um deles, percebi que são um povo muito forte. Passam por muitas adversidades, uma realidade completamente diferente da nossa: na esmagadora maioria dos casos, não há um pai e uma mãe a apoiar, não há uma casa, não há um acesso fácil a escolaridade, não há um ambiente seguro. Mesmo assim, há sempre um sorriso, animação e música. 


As patrulhas noturnas, lugar onde apenas existiam as tartarugas, o céu estrelado, o barulho das ondas e 2 pessoas muito diferentes, acabavam por potenciar conversas com substância, se apenas estivéssemos abertos a isso.
Para mim, a maior beleza desta experiência reside mesmo aí: na substância desprovida de distrações prescindíveis. Quer no contacto com as pessoas, quer no trabalho com os animais.
Tudo isto, aliado a um céu carregado de estrelas, fez-me regressar a casa com um espírito mais liberto, renovado e realizado. 

Espero que tenham gostado e que vos tenha realmente despertado o interesse para este tema. Qualquer dúvida que possam ter, não hesitem em perguntar, terei muito gosto em responder!



Saturday, 23 June 2018

1 ANO DE BULLET JOURNALING

E foi no ano passado que, por volta desta altura, coloquei de lado as agendas e me converti (por assim dizer, que não sou pessoa de conversões) ao mundo do bullet journaling! Devem estar a pensar porque raio decidi eu fazer isso a meio do ano, mas a verdade é que Junho representa para mim (e acredito que para muitos de vocês também) a terrível altura dos exames e, por isso, de muito stress. Este caderno acabou por ser uma forma de evasão a isso. 
Para além de ser ótimo em termos de organização, todo o processo ajuda a distrairmo-nos de toda a agitação e desordem do quotidiano. 
Dou por mim a sorrir enquanto desenho, escrevo pequenas quotes e, até mesmo, recolho flores e folhas que depois seco e colo no caderno. Tudo isto de uma forma muito descontraída, sem obrigações.
Hoje trago-vos alguns exemplos daquilo que fiz ao longo do último ano (já tinha partilhado com vocês o meu mês de Fevereiro), espero conseguir inspirar-vos e incentivar-vos a experimentar!


Gostava muito de ter sido abençoada com jeito para as artes, mas, como isso não aconteceu (só a minha letra já é um horror), acabo por aprender com o Pinterest e com pessoas talentosas como a AmandaRachLee, a Ann Le e a @jannplansthings. Acreditem em mim quando digo que não é preciso ter um jeito natural para isto porque as minhas capacidades de desenho livre resumem-se às mesmas que tinha quando andava na escola primária (florzinhas e bonecos com uma cabeça totalmente desproporcional). 
Com o tempo, todos melhoramos!


Testar novas técnicas (como as aguarelas, por exemplo) é algo que me anima e dá muita satisfação, mesmo que saia mal. Não quero deixar de frisar que cometer erros é normal e faz parte, não há problema nenhum nisso. Cada um de nós tem o seu próprio ritmo e, com o passar dos meses, acabamos por ajustar o layout àquele que mais se adequa ao nosso estilo de vida! Aconselho completamente.
É muito bom poder desfolhar as páginas e ver tudo o que escrevi, os pequenos textos, as quotes e as recordações que aqui ficam para sempre guardadas!